O ano em que enfrentei Thomas Pynchon

[Texto publicado originalmente em 11 de janeiro de 2014]

Ele é um totem, o Homem Sem Rosto da Literatura, e mesmo escrevendo alguns dos livros mais estranhos, difíceis e complexos da segunda metade do século passado, é extremamente cultuado. Comecei a ler (enfrentar, seria a palavra ideal) Thomas Pynchon pelo jeito mais convencional: seu primeiro livro, V. (1963), ao mesmo tempo um incentivo e um desafio para novos escritores. O livro é tudo que (não) se espera de uma obra de estreia — complexo, profético, intrincado, além de contar com a aquela que se tornaria a marca registrada do autor: paranoico.

A experiência foi diferente do que esperava. Ansiava por diversão e recebi sarcasmo, esperava complexidade e enfrentei muito mais que um quebra-cabeças, queria resoluções e só vi questionamentos. O maior mérito de V. foi dissecar um Outro Lado para o espírito americano no pós-II Guerra. Não o lado vencedor, o lado que planejou coisas como a Normandia e colocou o Japão de joelhos com suas armas nucleares. Mas o desterro de pessoas que não se encaixavam em lugar algum e caíram de cabeça em jornadas que buscavam unicamente dar sentido a tudo a seu redor.

Falando assim parece uma mistura barata da literatura beat (justamente a que levou Pynchon a sentir vontade de se tornar escritor) e um livro de auto-ajuda vagabundo travestido de ficção de Dan Brown. Impossível ser mais diferente. Há muito ecos dos personagens hiper-realistas de Jack Kerouac em V., mas o autor ainda mescla esse registro de um período importantíssimo da História com o misticismo, estilo literário e o imaginário dos livros de William Burroughs, o beat-menos-beat de todos, além de utilizar uma prosa limpa, um estilo intrincado e o raiar tecnológico da década de 1960.

A trama é diversificada e cheia de camadas estranhas, mas pode ser resumida como a busca de dois homens deslocados: o primeiro deles, o ex-marinheiro Benny Profane, é um verdadeiro beat e entre sessões de free-jazz e conversas intelectuais com um grupo de boêmios chamado Turma Muito Doida; encontra o segundo, e talvez mais importante, Herbert Stencil, que vaga em busca da verdade sobre a amante/pessoa/entidade/cidade/conspiração simplesmente chamada de V. no diários do pai dele, um espião e diplomata que atuou durante a II Guerra Mundial.

A letra-símbolo V está presente até na estrutura do livro: as histórias dos dois personagens são como linhas que convergem até um final, de certa forma, revelador; que mesmo que não explique tudo que você quer saber, desfaz os mistérios mais densos da trama.

Choveu adoração pra cima de V.: o livro foi indicado para o National Book Award — tão importante quanto o Pulitzer para escritores americanos — e ganhou o William Faulkner Foundation Award de Melhor Romance de Estréia. O New York Times escreveu que Thomas Pynchon era “uma promessa impressionante”, com um estilo “vigoroso e criativo”. Quis o Destino que, assim como V. e suas múltiplas encarnações, o próprio livro tivesse várias edições com diferenças entre si, graças a algumas correções feitas por Pynchon após a primeira impressão — correções só adotadas pela editora britânica Jonathan Cape.

V. é como uma sinopse de todos os temas que Pynchon abordaria em seus livros futuros. O principal deles é a paranoia de suas histórias. É difícil não ler um obra do cara e não começar a enxergar uma espécie de Ordem Secreta por trás de todos os acontecimentos presentes no livro — com mais 100 páginas, você começaria a perceber o mesmo em tudo ao seu redor. Ao final da maioria dos livros, a tal Ordem Secreta nunca é revelada, e permanece habilmente nas sombras, na sua mente. É um passo perigoso que leva qualquer um a questionar a própria sanidade. Também existe a questão do Subterrâneo, a morada dos Conspiradores — em V. o subterrâneo chega a ser um componente materializado, já que Profane pratica viagens aleatórias em metrôs (lembrou os Situacionistas… 10 anos antes dos primeiros vestígios deles entrarem na História) e trabalha por um período como um caçador de crocodilos nos esgotos de Nova York (e lá ouve histórias bizarras de uma encarnação de V.).

Há muito mais além disso: nomes engraçados e espirituosos sempre surgem nos livros de Pynchon, além das situações e coincidências mais estranhas possíveis. Personagens que aparecem nos lugares certos, falam as coisas certas, aprendem as coisas certas. Não se surpreenda se, aos poucos e de forma aterrorizante, começar a entender como Pynchon molda o mundo em torno dos livros dele.

O autor é descrito como Pós-Moderno, o que é apenas uma forma de dizer que ele é prolixo, entope seus livros com informações enciclopédicas e digressões longas, insere piadas e músicas de todos os tipos no meio da prosa, mistura intelectualismo com baixa cultura, e por aí vai. Em resumo: existe uma grande subversão da literatura clássica e moderna (e cansativa) do século XIX, que conseguiu sobreviver por algumas décadas antes de ser estraçalhada no século XX. V., a tal personagem do livro, segue esse quebra-cabeça histórico, ao surgir como uma menina do século XIX, e depois trocar de identidade (ou de corpo mesmo, quem sabe?!) para aparecer de novo em Florença, Paris e Malta. As encarnações da personagem percorrem não só os fatos históricos que desembocaram no século XX, mas também estilos literários e culturais agonizantes.

Há um espírito ambicioso que permeia todo o livro, no sentido de demonstrar que um dos principais objetivos de Pynchon com seu livro de estreia é estabelecer uma espécie de mitologia moderna, que mistura robótica, homens perdidos e lendas urbanas. Profane e Stencil são como as famosas duplas dos seriados dos anos 1940 — que tinham muito menos peso histórico que possuem hoje. Seria o equivalente moderno e contracultural a Ulisses, se o autor não lançasse O Arco-Íris da Gravidade 10 anos depois, tido como sua obra máxima, e um dos livros mais importantes do século passado — mas esse ainda não li, fica para um próximo post.

O terror que assolou a América anos depois da publicação da obra não poderia ser mais profético: o Assassinato de John Kennedy se deu apenas meses depois do livro chegar às mãos dos leitores, e precedeu Watergate e o Fim do Sonho Americano. Se o analisarmos com a carga de conhecimento atual, ele parece ainda mais certeiro, ao tratar de subtemas pesados como Terrorismo, a Cibernética e o estado de suspensão de toda uma geração, que mesmo muitíssimo bem informada, parece mais apática que qualquer uma que a precedeu. Os americanos aparentam ser ainda mais paranoicos e perdidos do que na revolucionária década de 1960 e muito disso já havia sido sutilmente percebido por Thomas Pynchon em sua obra de estreia — ele tinha apenas 26 anos quando o livro foi lançado, e 24 quando começou a escrevê-lo.

Antes de boa parte da população americana simplesmente demonstrar uma poderosa parcela de descrédito ao seu governo, a Turma Muito Doida (Whole Sick Crew, Tripulação Inteiramente Doente, no original, um trocadilho com o fato de Profane ser um ex-marinheiro, assim como o próprio Pynchon) já era praticamente um grupo beat urbano. Antes de cada ser humano saber das entranhas conspiracionais de seu governo com o WikiLeaks e Edward Snowden, Stencil já tinha sua trama de espionagem para investigar. E o fim da trama do livro é como uma metáfora para qualquer gigantesca Conspiração: não há uma mão secreta no controle dos fios que movem o mundo, não há uma mega corporação ou grupo de executivos todo-poderosos no controle de toda a economia mundial — ou será que há?! Talvez a Conspiração e Paranoia sejam exatamente como V: uma musa que inspira e move a vida de muitos rumo a um alvo indecifrável, que só poderá ser contemplado quando atingido. A Certeza aqui é um luxo nunca concedido.

Para os fãs da literatura do autor, o V ainda é um símbolo recorrente em seus livros: tem o formato do arco-íris e da trajetória das bombas (bombas V, por sinal) em O Arco-Íris da Gravidade; dos arcos dos portões e das trajetórias das bolas de neve, do Sol e dos planetas no céu, observados pelos astrônomos (e agrimensores!) em Mason & Dixon (já falo dele); do símbolo em forma de corneta do correio secreto de O Leilão do Lote 49; e do triângulo de personagens centrais de Vício Inerente (também falo dele abaixo). Proposital? Talvez.

E finalmente, V também representa o volume na fórmula clássica da Entropia, e quem quer que tenha lido ao menos um livro do autor sabe que isso não é qualquer coisa. Em linhas gerais, a entropia mede e representa o grau de “desordem” dentro de um sistema físico. Pynchon aplica esse conceito a Sociologia e mergulha seus personagens em verdadeiras jornadas entrópicas, onde apenas olhando de fora é possível encontrar algum tipo de ordem dentro de fatos estranhos e bizarros. V seria uma espécie de símbolo da decadência humana dentro de sua própria cultura, rumo a desordem — e rumo ao Pós-Modernismo completo, onde tudo é absolutamente relativo, diriam alguns. A confusão, desordem, está presente até na própria linguagem apresentada pelo autor, com o uso de símbolos, abreviações pouquíssimo conhecidas, siglas semi-secretas e descrição de gestos.

O uso dessa “não-comunicação” é dúbio: pode servir para imergir os leitores dentro da trama do livro, ou afasta-los. Isso se reflete na forma como os personagens interagem, e acham que estão próximos, quando na verdade estão distantes. Alguns deles — como Profane — buscam o amor, mas só encontram a Desordem. Uma das garotas preferidas de Profane em V., Rachel Owlglass, prefere amar um carro, enquanto Stencil apenas ama sua própria busca. Já Fergus Mixolydian, um dos integrantes da Turma Muito Doida, prefere ser parte do aparelho de TV da casa dele, e se ligou a ele através de cabos conectados aos pulsos.

Tudo se amplia quando percebemos que, em certos momentos, estamos inseridos em Versões Alternativas da Realidade construídas por personagens do livro. O fato de V. ter dois protagonistas é uma das razões da dificuldade por trás da compreensão do livro. O título do capítulo 3 (No qual Stencil, um ágil transformista, faz oito personificações) é uma pista clara dessa possibilidade dentro do livro, onde a história de uma das primeiras encarnações de V. (ao menos foi essa a conclusão que tirei) é contada em oito passagens históricas que podem ser (ou não) oito pistas da identidade de V. percebidas por Herbert Stencil. Tal como é possível prever, isso é uma mera dedução do que seriam acontecimentos obscuros e passados, assim como as passagens nos esgotos de Nova York — e a história do padre que pregava o Evangelho para ratos — são deduções de segredos de Benny Profane ocorridos nos subterrâneos da cidade. Assim como eles, jamais temos uma resposta definitiva, e essa foi a forma brilhante encontrada por Pynchon para nos dizer o óbvio: o mundo é quântico, mutável, e instável demais para superteorias como o Cristianismo, Física (uma das formações do autor) e o Marxismo/Capitalismo, assumirem o escopo total da realidade.

Acredite, entender V. de forma integral é mudar a sua própria forma de pensar.

Além de Ciência, fórmulas matemáticas e Subversão, Thomas Pynchon ama a cultura Underground e a Contracultura americana, e isso se reflete claramente no segundo livro dele que li em 2013: Vício Inerente (2009). Ao contrário de V. e seus múltiplos personagens, múltiplos períodos históricos e mistério denso; aqui temos um personagem principal claramente distinguível, uma trama facilmente identificável e uma homenagem apaixonada a surf music (na verdade, a toda a cultura surf californiana dos anos 1960/70), ao jazz (também presente em V.) e às história pulp de detetive. É um livro mais simples, direto ao ponto, com as arestas mais firmes e visíveis.

Mas ainda tem Pynchon em todos os cantos.

A trama é uma barbada: o detetive particular porra-loca Doc Sportello que vive chapado, num dia como qualquer outro, é contratado pela ex-namorada Shasta Fey para investigar o desaparecimento do atual dela, um bilionário do ramo imobiliário. Simples, e ainda ambientado nos loucos anos 60 — engraçado que justamente na década em que a História da Humanidade muda de forma drástica, Pynchon reduz a escala de sua ficção para mostrar um microcosmo praiano que bem pode ser um retrato de todos os Estados Unidos Paz e Amor. Não muitas páginas à frente a trama dá uma guinada e logo Doc e sua empresa de investigação — a LSD Investigações (Localizamos, Seguimos, Detectamos), nada mais apropriado — se veem envolvidos em uma conspiração que envolve um grupo maquiavélico de dentistas, um policial durão que odeia hippies e vez ou outra joga uma pista para ele, proto-hackers, Charles Manson (a maior referência temporal do livro), Richard Nixon, os Panteras Negras e, claro, viagens de drogas cheias de insights.

Em alguns momentos é natural se sentir perdido — é informação demais, diálogos malucos demais, personagens demais — e surge uma dúvida: deixar rolar como um sonho doido ou simplesmente voltar e tentar caçar toda e qualquer migalha de pistas e sacar todas as referências e tudo mais? Meu conselho é seguir seu nariz. Pynchon escreve para vários tipos de leitores. Talvez, o melhor conselho seja ler duas vezes. A confusão aparenta ser proposital: pegamos carona em um personagem completamente chapado, com amigos ainda mais doidos, e essa característica fundamental não poderia se tornar um detalhe para servir de alívio cômico, então ele prefere tornar toda a trama um delírio drogado.

Dá pra sentir o amor de Pynchon pela literatura beat. Na profusão insana da prosa. Nos diálogos chapados, muitas vezes com pontos de interrogação desnecessários. No mundo que, aos poucos, se torna incrivelmente maior que o protagonista descabeçado. Nas descrições longas -não é difícil sentir a brisa fumacenta praiana e californiana após algumas páginas, ou o cheiro inebriante de maconha, ou ficar imaginando como Sportello aguenta tanto tempo de investigação com aquelas chinelas mexicanas nos pés.

(O livro ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida pelo sempre ótimo Paul Thomas Anderson, e dizem por aí, com a colaboração do próprio Pynchon. Além de um elenco estrelado: Joaquim Phoenix como Sportello, a eterna lindinha Jena Malone (de Donnie Darko), Owen Wilson, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Sean Penn, Reese Witherspoon e Martin Short. Se não desse certo com Anderson, poderiam entrar em cena os Irmãos Coen que tudo daria certo também, aposto).

Mais ou menos na metade do livro — que tem 464 páginas — você estará mergulhado completamente na paranoia de Sportello, provavelmente o protagonista mais paranoico já concebido por Pynchon (dizem que em O Leilão do Lote 49 e Vineland as coisas são piores), que ainda por cima tem um estilo todo especial de investigar: ao invés de separar pistas importantes, ele simplesmente vai seguindo o que aparece, como um garotinho puxando uma corda encontrada na rua, para simplesmente ver no que dá. Os resultados nem sempre são os melhores, mas é impossível discordar da eficiência do método. O próprio método de Sportello é um pequeno resumo da estrutura da escrita de Pynchon, que quando vista em seus detalhes, revela um padrão impressionante — belo até -, algo tão dicotômico quanto esse livro noir praiano, que culmina num final quase místico e novelesco, onde se destaca a frase “A terceira dimensão ficava cada menos confiável”, que pode ser um resumo de tudo que representa a paranoia lisérgica de Vício Inerente.

Pynchon, quando se alistou na Marinha

É impossível falar da literatura de Pynchon sem comentar a vida pessoal dele — pode comprovar, e procure um texto sobre ele sem a palavra “recluso”. O assunto não é importante porque a reclusão dele representa uma espécie de anomalia jornalística, mas devido ao fato de uns 30% do sucesso dele vir da ocultação deliberada toda e qualquer informação sobre a própria vida nos últimos 50 anos. Em tempos de celulares com câmera e 4G, Google Maps e tabloides cada vez mais ávidos por grana, é realmente de se admirar que nem uma mísera foto do cara circule por aí. E, diferente de J. D. Salinger, Pynchon não é realmente um recluso na acepção correta da palavra: ele mora em Nova York, é casado com uma agente literária famosa da maior cidade do mundo e se corresponde com os tradutores que colocam as mãos em seus livros. Reclusão é apenas uma forma meio tacanha da imprensa dizer que ele não dá entrevistas e não quer suas fotos publicadas por aí. Em 1997, a CNN o localizou e o filmou, o que naturalmente o deixou tão puto quanto um grupo de islâmicos contemplando um desenho de Maomé. Ele concordou em dar uma entrevista se a filmagem nunca fosse divulgada, o que a emissora concordou em partes, já que segundo a âncora do canal, Pynchon aparece no meio da multidão durante a matéria.

O principal fator interessante de sua biografia — que inclui ter cursado Física e Literatura na Universidade Cornell, onde supostamente teve aulas com Vladmir Nabokov, ter servido a Marinha, virado escritor técnico da Boeing até escrever V., quando se libertou do trabalho convencionou e foi buscar refúgio no México — seja uma leve confirmação do clima de paranoia dos seus livros. Um autor misterioso, que já teve a existência posta em dúvida (alguns até achavam que ele era um pseudônimo usado por um grupo de escritores, mais ou menos a suspeita que mandaram pra cima do Shakespeare). Fora isso, nada demais, além de nos fazer questionar essa ultra-exposição absurda dos escritores, muitas vezes parecidos com galos velhos cuja única missão é cacarejar em horas erradas, e que ainda leva escritores iniciantes a dizerem besteiras desse nível, como é o caso do Raphael Draccon, que num misto de deslumbramento e protecionismo idiota às editoras, gerou uma certa polêmica.

O que nos leva a Mason & Dixon (1997), o último livro que li do autor em 2013, e também o melhor. Não que V. e Vício Inerente façam feio, mas é que Mason & Dixon é algo com poucos precedentes. Se Pynchon já havia criado uma mitologia, aqui ele criou um épico histórico emocionante que traz alguns dos melhores personagens criados por ele — justamente a dupla real de cientistas/exploradores que dá nome a obra. O livro é ousado, e traz uma história do século XVIII em que um astrônomo e um agrimensor recebem a incumbência de traçarem uma linha que divide dois estados americanos — que algumas décadas depois se tornaria um marco simbólico e sinistro das diferenças entre o Norte (livre e industrial) e o Sul (escravagista e agrário) dos Estados Unidos.

Mas a grande questão levantada por Pynchon em todos os seus livros — o que se sobressai no mundo, uma conspiração armada por agentes do mal ou o puro e “simples” caos? — ainda está lá, em todas as páginas. E Pynchon ainda incorpora uma linguagem cheias de palavras da época — traduzidas e adaptadas com perfeição por Paulo Henriques Britto — , frases longas, referências a cultura pop e a História (quero ver você segurar o sorriso quando ver uma referência bem encaixada a Jornada nas Estrelas em meio ao folclore de uma cidade no interior do Meio Oeste americano), além da notável amizade entre Charles Mason (1728–1786) e Jeremiah Dixon (1733–1779).

O período histórico escolhido pelo autor — que mistura deliberadamente fatos com ficção, às vezes bem absurda — foi selecionado no intuito de colocar a trama em um limiar, uma época em que o Racionalismo do Iluminismo ainda estava longe de superar a superstição e o misticismo que foram os dínamos metafísicos da humanidade até o período. Mason é viúvo, muito mais racional, científico, centrado (o que é um contraste interessante com a personalidade de Dixon, que é festeiro, beberrão e mulherengo), e ainda assim tem visões de sua mulher morta, Rebekah. “Como um homem da ciência pode acreditar em espíritos?”, tortura-se ele em certo momento — e esse choque de percepção, de convergência de pensamento, é uma das principais forças do livro.

Mason & Dixon é uma grande mistura, e alterna momentos cansativos, épicos (as digressões sobre a Verdade contida nos relatos históricos), engraçados (uma pata mecânica que ganha vida e se apaixona por um cozinheiro), inteligentes (quando um cão falante explica que os cães eram alimento dos humanos, até que chegaram a conclusão que a melhor forma de sobreviver era imitar o comportamento deles), emocionantes (as dificuldades de relacionamento de Mason com o pai dele, além do abandono dos filhos, é de evocar lágrimas), bizarros (quando Mason se encontra com o sinistro depositário da Orelha de Jenkins, que se tornou uma espécie de oráculo às avessas, sugando e ouvindo todo o tipo de informação sem nunca fartar-se) ou uma mistura de tudo isso (quando dois relógios ultra-precisos conversam sobre a natureza do tempo e de como eles se tornarão muito em breve instrumentos para escravizar a humanidade). Há ainda músicas com as piores letras possíveis, uma conspiração de jesuítas, Linhas de Ley, corrupção política e um convento de freiras fogosas. Eu poderia ficar aqui apontando tudo que me marcou no livro e ainda assim não chegaria em uns 30% do que essa enciclopédica obra contém.

Mas é um livro relativamente fácil de acompanhar, porque é um road book gigante, com uma trama constantemente seguindo para um Oeste Selvagem, onde a civilização é cada vez mais escassa, o que extingue a exigência de um enredo que dá voltas em torno de si e se auto referencia, como um Conjunto de Mandelbrot. Um exemplo da trama desconexa é sua primeira parte, que narra uma observação da dupla da trajetória de Vênus na África e dura 280 páginas. Apesar do tamanho maior que muitos livros, esse primeiro momento serve como uma apresentação de luxo dos personagens, de técnicas astronômicas e da narração egocêntrica que traz uma versão própria aventuras do autor ao sul da linha do Equador. Se 90% dela fosse cortado, pouca diferença faria — com exceção do fato que leríamos um livro inferior ao resultado completo.

Por mais importante e cheio de momentos brilhantes que essa introdução possa ser, o livro só começa na parte dois, “América”. Em pouco tempo percebemos que a Linha Mason-Dixon, para Pynchon, foi também um símbolo da destruição que a civilização levou — não apenas queimadas e comércio de escravos, mas também massacres de índios. Na visão dos ingleses, a América era apenas uma fronteira a ser conquistada, e uma história de orgulho a ser contada futuramente.

Muitos críticos (na verdade poucos) acusam Pynchon de criar personagens e situações unicamente inteligentes, mas nunca críveis ou que gerem qualquer identificação. É o que o crítico James Woods chamou de Realismo Histérico (lançando mão do trocadilho, uma das armas de Pynchon e dos que o seguiram, como David Foster Wallace), onde se incluem livros gigantes, cheios de personagens, informações, enciclopedismo. Mas “falta humanidade”, segundo ele. Provavelmente ele não leu Mason & Dixon, onde todas essas características estão lá, mas o humanismo consegue não apenas estar presente, mas se sobressair.

Um leitor de fôlego e com algum traquejo com livros grandes pode optar, sem problemas, por não buscar todas as referências ou fatos históricos e, ainda assim, encontrará uma histórica tocante de uma longa amizade que sobreviveu a intrigas e conspirações. Com algumas pitadas de realismo fantástico, o que enquadra Mason & Dixon como o livro que mais próximo chegou da linguagem positivamente relaxada dos quadrinhos. E é também o melhor de Pynchon que li — O Arco-Íris da Gravidade ficou pra 2014. Mas se o tal leitor forçar um pouco o cérebro, encontrará um épico sobre o nascimento da Idade da Razão, uma crítica ao Colonialismo, uma homenagem a ficção científica e ao folclore.

Se isso não é o suficiente para colocar um escritor na lista de melhores da história, Eu não sei mais o que é.