Culture Jamming: como embaralhar a realidade e ainda posar de artista, estrelando os Yes Men

“Não deixe rastros…”

Lema da extinta sociedade secreta Suicide Club e do Burning Man Festival

“Se você é o que eles chamam de “diferente”
Se você pensa que nós estamos entrando em uma nova Idade das Trevas
Se você vê o universo como o mórbido senso de humor de alguém ou de ninguém
Se você está procurando uma religião inerentemente contraditória que desculpará a mais alta degeneração e ainda lhe dirá que você está “acima” dos outros
Se você suspeita que as coisas são muito piores do que você jamais suspeitou
Se você pode nos ajudar com uma doação…
… então a Igreja do SubGenius pode salvar sua sanidade”

Introdução de SubGenius, o livro

O ser humano não está preparado para mentirosos bons o bastante, aqueles dotados com a fina arte da enganação e manipulação, capazes de jogar nossas fraquezas emocionais contra nós mesmos. O maior mentiroso dos últimos tempos foi Bernard Madoff, que no superparanoico mundo das finanças de Wall Street planejou fraudes que alcançaram valores de US$ 65 bilhões — algo assustador em qualquer cenário de análise — apenas com o manjado esquema da pirâmide.

Alguns conseguem levar a Mentira para novos níveis, por extrair dela, digamos, algo essencialmente benéfico. A dupla Yes Men entra nessa estranha categoria. Conheci os caras em um Mapa do Discordianismo, que os encaixava na categoria “Prank” (pegadinha), junto com os escritores psicodélicos do Merry Pranksters e a Operação Mindfuck, uma das mais famosas expressões da religião da discórdia. Em sua classificação mais usual, os Yes Men são colocados na categoria de “interferência cultural”, um nome em português para o vago culture jamming, que define uma série de técnicas de guerrilha anticonsumistas, anti-cultura mainstream e por aí vai.

Melhor seria dizer que os Yes Men são simplesmente mentirosos. E fazem da mentira uma arte. Em sua rotina, essa dupla de comediantes/caras-de-pau, formada por Andy Bichlbaum e Mike Bonanno, finge ser executivos ou funcionários de grandes empresas e dão declarações bombásticas em programas de TV ou entrevistas de rádio. Como fazer algo assim em um mundo supervigiado, com câmeras pra todo lado e assessores de imprensa ao alcance de um telefonema?

Simples, e com o perigo de soar repetitivo: exercitando a mentira como Arte.

Por definição, jornalistas são desesperados por notícias, precisam urgentemente de respostas, declarações e posições oficiais. Alguém hábil e com tempo livre consegue achar brechas na ligação entre imprensa e repartições públicas ou empresas, e se aproveitar disso. Tomemos como exemplo o caso mais emblemático dos Yes Men, em 2004.

Era o aniversário de 20 anos do desastre de Bhopal, na Índia, quando 500 mil pessoas foram expostas a gases tóxicos após um vazamento de 40 toneladas em uma fábrica de pesticidas da Union Carbide. Algo sem precedentes, que resultou na morte de pelo menos 3 mil pessoas, considerado o pior desastre industrial da história. Os médicos não conseguiram tratar as pessoas da forma correta, pois a empresa se recusou a fornecer detalhes dos compostos vazados. O resultado são mais de 50 mil pessoas completamente incapacitadas para a vida profissional e outras 100 mil com algum tipo de sequela do acidente. Indenizações? Ajuda aos afetados? Nada disso: a Union Carbide foi comprada pela Dow Chemical e simplesmente abandonou a fábrica, que ainda contamina o solo e lençóis freáticos locais.

Sabendo da efeméride, os Yes Men montaram com alguma antecedência um site falso da empresa (hospedado no endereço dowethics.com, enquanto o verdadeiro fica na URL dow.com) com o visual muito similar ao site real, e foram contatados pela BBC para uma entrevista com o objetivo de comentar o acidente. Ao vivo, na frente de todo o planeta, Bichlbaum (nomeado Jude Finisterra, um porta-voz inexistente da Dow) afirmou que a Dow Chemical utilizaria US$ 12 bilhões para indenizar as vítimas, limpar o local e financiar uma investigação sobre os motivos do acidente. Foram duas horas ininterruptas de conversa e cobertura intensa e “exclusiva” da BBC, replicada por outros telejornais e sites de notícias momentos depois. Tudo às 9h da matina, para abrir o dia e repercutir no mundo inteiro.

Ainda naquela manhã, a Dow emitiu um comunicado oficial afirmando a falsidade da história e a barrigada da BBC. Caso superado, né?! Errado: o estrago já estava feito, já que as ações da empresa caíram 23% após a empresa desmentir o fato, resultando em perdas de US$ 2 bilhões. Boa parte dos detalhes está registrada no site oficial dos caras.

Em 2007, durante uma conferência de petróleo — na verdade, maior delas, a Go-Expo — eles atacaram de novo, e fingiram ser um representante da ExxonMobil durante uma palestra para 300 dos mais importantes magnatas do petróleo no mundo. A ocasião era especial, já que o setor aguardava os resultados de uma pesquisa encomendada pelo próprio Secretário de Energia dos Estados Unidos da época, Samuel Bodman. Um dos Yes Men anunciou que Lee Raymond, representante da Exxon, não poderia comparecer e ele seria a pessoa que discursaria.

Os resultados das pesquisas não poderiam ser mais otimistas: ele apresentou um plano para uso de petróleo a longo prazo, em que as pessoas mortas pelas calamidades perpetradas pela indústria serviriam como combustível para os próximos séculos de uso do petróleo, em um projeto intitulado Vivoleum, que obviamente foi muito bem recebido pelos executivos de petróleo. Os Yes Men ainda distribuíram velas para o público, enquanto ao fundo um vídeo mostrava que o material para a cera era feito da gordura de um funcionário de limpeza de resíduos tóxicos.

Naturalmente existiram mais golpes, alguns geniais. Em 2008 imprimiram 80 mil exemplares falsos do New York Times e distribuíram simultaneamente em cidades como Nova York, Los Angeles, São Francisco, Chicago, Filadélfia e Washington. A diagramação era a mesma, e inclusive foi feita por diagramadores não identificados do NYT. As notícias? Coisas como o fim da guerra do Iraque, o pedido de desculpas e indiciamento de George Bush e a saída das tropas e empresas de petróleo americanas do Oriente Médio. Milhares de pessoas ficaram estupefatas com as manchetes. Repórteres do Times e do NYT parabenizaram extraoficialmente a brincadeira e disseram que os exemplares se tornariam “coisa de colecionador”.

O último dos grandes golpes foi feito em 2011, quando a dupla fez um site falso (sim, ainda caem no golpe do site falso atualmente) da General Electrics, quando a empresa enfrentava uma crise sem precedentes — o mesmo destino de toda a economia americana. No site, a notícia bombástica: GE Responde ao protesto público — vai doar 3,2 bilhões de dólares para ajudar a salvar empregos norte-americanos, noticiada por diversas agências ao redor do mundo até ser desmentida horas depois.

Os Yes Men já foram tema de dois documentários, que detalham o planejamento dos caras quando o assunto é mentira em grande escala. Tudo grátis, para não deixar o hoax morrer. O melhor deles se chama The Yes Men Fix the World, de 2009, que me chamou a atenção pra eles em definitivo.

Nesse universo de Culture Jamming, os Yes Men são reis, embora outros gênios habitem o mesmo espaço, continuamente colocando pulgas atrás das orelhas de grandes corporações e intelectuais de ocasião. Todos influenciados pelo Dadaísmo, o Situacionismo, Discordianismo e suas vertentes… pós-modernas, na falta de uma definição melhor. A ideia é confundir e questionar padrões, e nesse sentido essas iniciativas merecem aplausos, ao proporem técnicas para tornar a Arte mais espontânea e menos burocrática, padronizada.

Tipo isso:

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público

Como fazer algo assim numa época conturbada, em que todas as experimentações estéticas, irônicas, questionadoras já parecem ter se esgotado e ganham a aparência rançosa de coisa vinda direto de hippies cansados ou subgrupos ainda menos importantes? Exatamente aí nasceu a Culture Jamming. O nome é novo, mas estamos falando de coisa antiga: o uso da Cultura para confundir, interferir e questionar valores sociais. Pelo menos desde os taoístas isso já existia de forma muito definida em grupos distintos, só mudou o propósito com o tempo — para um panorama melhor sobre o tema, leia Contracultura através dos tempos, de Ken Goffman e Dan Joy. Após o fim da Guerra Fria o mundo não mais possui um inimigo claro no Ocidente — Nixon, Capitalismo, Wall Street, todos esses se camuflaram nas sombras ou simplesmente se foram — tudo isso foi vencido e não parece ameaçador. Corporações? Consumismo? Tecnologia? Talvez o Inimigo agora seja nós mesmos e a forma como reagimos ao modo de vida ocidental.

Como questionar algo tão difuso, subjetivo e entranhado na nossa rotina? Com criatividade, extravagância e levando em conta que os canais “normais” de comunicação já estão devidamente entupidos de publicidade, memes caça-cliques do BuzzFeed e bobagens diárias.

Provavelmente a iniciativa anticonsumista mais famosa do momento é a Adbusters, um grupo que publica uma revista de mesmo nome e já esteve por trás de campanhas importantes, como Occupy Wall Street (um empreendimento praticamente pessoal do ex-editor-chefe da revista, Micah White) e outras não tão conhecidas, como o Buy Nothing Day (Dia Sem Compras), sempre no último sábado de novembro. No Brasil, seria algo como uma revista Trip mais criativa, sem os momentos mala de salvação do mundo e as mulheres peladas.

Obviamente, para sobreviver no seio do Capitalismo, muitas vezes esses movimentos se associam com alguns tipos muito estranhos e todos são colocados no mesmo balaio em qualquer análise feita pela grande mídia — tipo esse texto da revista esquerdista Jacobin (que não é bem “grande mídia”, mas vá lá!). A maioria deles nem liga pra isso. Várias vezes o Adbusters já foi associado a grupos anti-vacinação, de conspirações do 9/11 e até alguns malucos fascistas, em uma salada indigesta e surreal demais para levar qualquer crédito.

Outros movimentos vão ainda mais longe e obtém resultados melhores. O mais cool deles é a Sociedade da Cacofonia, composta por artistas e malucos em geral. Seria a versão século XXI dos hippies, mas sem aquela pregação chata, viajandona e o conceito de separação da civilização. Integrantes da Sociedade foram os fundadores do mundialmente conhecido Burning Man, talvez o maior festival de contracultura do planeta. Embora um dos slogans da Sociedade seja “Você já pode ser um dos nossos integrantes sem saber”, uma forma de expor a natureza anarquista e aberta do grupo, eles possuem membros famosos, como Chuck Palahniuk, que utilizou as experiências da Sociedade da Cacofonia para escrever, adivinhem… Clube da Luta (alguns sites afirmam que a participação do autor no grupo é um gigantesco hoax, mas ele estão errados). O grupo surgiu em São Francisco e logo se espalhou por toda a Costa Oeste americana, ganhando células em Los Angeles, Portland e outras dúzias de cidades. Canadá e Inglaterra também deram origem a suas próprias células.

Ao contrário dos Yes Men, esses grupos de culture jamming não são exatamente especialistas em mentiras. Mas utilizam pegadinhas linguísticas para passarem uma mensagem adiante e garantir alguma mobilização. Coisas como uma convenção de papais noéis bêbados que andam aterrorizando a cidade ao lado de strippers na véspera de Natal (criação do Suicide Club, uma sociedade secreta extinta que deu origem a própria Sociedade da Cacofonia, ao Burning Man e teve entre seus integrantes o ativista John Gilmore, um dos membros mais ativos da Electronic Frontier Foundation), ou entrar em uma loja de brinquedos e encher um monte de ursos de pelúcia de cimento, ou ainda plantar evidências da invasão de alienígenas na Terra. Ou, por que não?, fazer seus membros se fantasiarem de palhaço e começarem a agredir comerciantes com tortas e baldes d’água, em uma ação chamada Klowns against Commerce.

Dá pra ler todas as maluquices que a Sociedade da Cacofonia e a Suicide Club distribuíam internamente em newsletters lá no Internet Archive. Os integrantes do grupo ainda realizam missões solo e vez ou outra se juntam com outras organizações não menos malucas, como a Operation: Mindfuck (lembra de Robert Anton Wilson? Nesse ponto ele se conecta com o conceito de Culture Jamming e se mostra um dos pais dele) e a Igreja do SubGenius. Cada ramificação tem suas próprias deidades, paradigmas, métodos estranhos e objetivos. No início parece tudo uma piada gigante (e realmente é!), mas um estudo um pouco mais aprofundado revela um certo padrão para onde quase todos os grupos convergem. Uma espécie de teatralização para agarrar as pessoas e retirá-las das próprias rotinas seguras e áreas de conforto.

O que pensar quando se vê um Papai Noel na rua encenando um estupro de uma ajudante com pouca roupa? Ou um bando de palhaços invadindo lojas e atirando tortas na cara dos comerciantes? Ou uma multidão acampada na frente de Wall Street? Ou ainda receber um exemplar falso do New York Times (ou da Folha de São Paulo) que traz notícias como “George Bush (Maluf, Gilmar Mendes?) se entregou a Justiça e espera ser condenado por anos de falsidades públicas” ou ainda que “O governo americano e duas corporações petrolíferas indenizarão os iraquianos pelos anos de expropriação durante a guerra”? O que parece ser uma simples piada pode resultar em uma pequena epifania e mostrar para qualquer um que o mundo é mais amplo que o caminho que separa a casa dele do trabalho, ou do restaurante mais próximo. Se dermos crédito à Maslow e sua teoria de que epifanias e Experiências de Pico atraem mais epifanias, felicidade e novas experiências de pico; e em Rupert Sheldrake e sua teoria de que quanto mais pessoas estão sintonizadas em uma certa experiência, mais ela se espalha através dos chamados Campos Mórficos, então podemos concluir que todos esses grupos de intervenção cultural estão protagonizando uma Revolução Psíquica Massiva. Ou não!

Uma influência particularmente forte na rotina de ações desses movimentos é a Teoria da Deriva, criada por Guy Debord. Ela basicamente estuda como o espaço geográfico urbano, nossas rotas, meios de transporte e outros pontos da cidade influenciam nossas emoções e condição psíquica. Andar sem destino por trens, explorar túneis, conhecer os ambientes noturnos da cidade e até morar na rua por dois ou três dias, deixando todo o dinheiro em casa; tudo é uma alternativa para conhecermos melhor o espaço que habitamos e tirarmos dele maior proveito A Teoria aponta para a possibilidade de nossas escolhas de deslocamento urbano não serem exatamente aleatórias e busca indícios para provar isso.

Se existem três caminhos diferentes para ir da sua casa ao trabalho, por que você sempre escolhe um deles e o segue por meses ou anos a fio? Por que faz uma parada sempre na mesma praça? Compra doce sempre no mesmo barzinho? É simplesmente uma questão de deslocamento menor, lei do menor esforço? Daí surgiu a ideia de efetivamente interferir no território urbano, e utilizá-lo como meio de condução rotineira.

Basicamente foi esse o dínamo que pariu o conceito moderno de Exploração Urbana (Urban Exploration, ou ainda Urbex, em inglês): a ideia consiste em explorar lugares abandonados ou pouco utilizados apenas pelo prazer da exploração. Grupos de exploração urbana são tão ativos quanto os exploradores da natureza. É uma forma de oxigenar espaços considerados inúteis ou vítimas de exploração imobiliária, mercadológica e por aí vai. Mas retire esse ranço ideológico da jogada ou qualquer traço político. Muitos encaram essa subcultura praticamente como uma atividade mística, apenas pelo prazer da descoberta.

Por falar em misticismo, ele está presente em muitos grupos de Culture Jamming. Já na cartilha Rough Draft, da Sociedade da Cacofonia, existia uma seção de misticismo muito ativa. Não para ganhar dinheiro ou coisa assim, mas para encarar Magia como uma ferramenta de revolução pessoal e coletiva. Em uma das newsletters, cursos para um sábado a tarde: o primeiro deles envolvia o ensino de “técnicas mágicas para criar seus próprios rituais e utilizá-los para obter o que deseja na vida”, com a utilização das “forças da natureza e da cidade” e o “poder de concentração cerebral”. Ao longo do tempo, ele se tornava um curso para “guerreiros xamã urbanos”. Logo depois, um curso de “Improvisação de Realidade”, que era mais ou menos a investigação das possibilidades de coisas contadas em quadrinhos realmente existirem, seguido pela escrita coletiva de um roteiro “mais absurdo possível”, acompanhado de um passeio noturno pela cidade onde enfrentavam a possibilidade de “serem atacados por religiosos fanáticos em uma guerra santa” ou ainda por “bandidos em busca de dinheiro”. Para fechar a noite, eles jogavam RPG, jogos de tabuleiro, tudo desviado de lojas “por gente do grupo”.

Existia ainda uma série de atividades pra lá de malucas que poderiam tranquilamente serem encaradas como “rituais mágicos”, como “ir a uma cidade fantasma ou abandonada e tentar encontrar vestígios da história dela” e depois buscar a versão “real” do que ocorreu com o local. Ou ainda um curso de escrita e poesia com um “legítimo bardo irlandês” e um concurso de “piadas inventadas na hora”. Certa noite houve até uma jornada “para tentar fotografar Thomas Pynchon” e utilizar a imagem para extorqui-lo em busca de saberem se o sistema de correios secreto WASTE (descrito pelo autor em O Leilão do Lote 49, onde um grupo de suicidas se comunica longe dos olhos do governo) realmente existe. E por aí vai…

Por aí dá para entender que existia uma preparação intensa de descondicionamento mental para essas pessoas se tornarem realmente malucas, e não apenas atores brincando de fazer bobagens pela cidade. É mais ou menos como exercitar o estilo de escrita em fluxo ou cut-up dos escritores beats (Jack Kerouac era responsável principalmente pela escrita em fluxo, e William Burroughs pela técnica cut-up).

Esses grupos geralmente têm uma relação quase messiânica com alguns filmes, livros e músicas. Os Discordianistas da Operação: Mindfuck e os integrantes da Igreja do SubGenius, por exemplo, são particularmente fãs de Ed Wood e sua “obra prima”: Plan 9 From Outer Space. Os motivos envolvem a capacidade de enganar de Wood e suas estripulias para fazer um filme minimamente aceitável — Bela Lugosi, a estrela do filme, morreu antes mesmo do início da produção, e o diretor utilizou imagens anteriores que tinha filmado com o ator para incluir no filme.

Já o Suicide Club e a Sociedade da Cacofonia tinham uma relação louca com o filme Stalker, de Andrei Tarkovsky. O longa tem uma pegada meio poética e filosófica… e também é uma ficção científica de primeira, mais ou menos como Solaris. No filme, os stalkers são guias remunerados pelos visitantes da chamada Zona — uma área militar protegida de um país nunca revelado — e são os únicos seres que conseguem desarmar as armadilhas do lugar. Segundo os stalkers, em algum lugar da tal Zona existe um cômodo onde quem entrar poderá realizar qualquer desejo.

O conceito de Zona — uma região onde as principais regras da Realidade são suspensas, onde todo o tipo de paranoia é aceitável e possível — foi utilizado pela Sociedade da Cacofonia, inclusive uma das principais newsletters internas do grupo se chama Trip to the Zone, posteriormente abreviada para Zone Trip e chamada Tales from the Zone na célula de Los Angeles.

Esse tipo de nebulosidade e inconsequência às vezes colocam esses grupos em rota direta com governos ou teias de conspiração das mais cabeludas. É largamente conhecido o envolvimento de Kerry Thornley (o Lord Omar, um dos criadores do Discordianismo, juntamente com Gregory Hill — ou Mataclypse, o jovem — um amigo de infância) com Lee Harvey Oswald, o principal suspeito do assassinato de John Kennedy. Os dois serviram juntos nos Fuzileiros Navais e vez ou outra escreviam algum panfleto subversivo. Na época do assassinato, Thornley até estava pra lançar um livro chamado The Idle Warrios, que entre outras coisas, contava uma história sobre Oswald quando ele era um fuzileiro com ideias subversivas.

A comissão de investigação da morte de Kennedy achou tudo bastante suspeito e intimou Lord Omar para depor e barrou a publicação do livro, apesar do volume só descrever a rotina dos anarcos de uma unidade dos fuzileiros no Japão. Anos depois, Thornley ainda falaria com os amigos que achava que Oswald era um agente da CIA para investigar os comunas e possíveis traidores de unidades militares dos EUA. Era o tipo de paranoia real que esses pioneiros enfrentavam. Para ter um panorama mais cabeçudo de um cara que estava no olho desse furacão, leia o livraço O Gatilho Cósmico, do Robert Anton Wilson.

Hoje tudo mudou. A Paranoia está a espreita de forma mais arraigada, mas com menos justificativas. Vivemos tempos áureos: globalização a toda, produtos chineses baratos para todos, aquecimento global não nos faz nem cócegas (eles não são páreos para nossos condicionadores de ar ultra potentes!), e se a vida estiver realmente uma merda temos Internet e redes sociais para nos abraçar com seus amigos postiços que não têm medo de dar like nas merdas que falamos.

Onde entra a Interferência Cultural aí? Nas entrelinhas. Contra os Atos Patrióticos, contra o Poder Cinzento das Corporações (entre na casa de seu vizinho e jogue gás tóxico nele e nos filhos dele em território americano para ver como o braço da lei virá contra você, ao contrário dos nossos camaradas da Dow). Para que combatermos os Illuminatis (sempre eles) se presidentes e secretários de defesa dos EUA são acionistas de empresas de armas e de petróleos… justamente as que mais enriquecem e valorizam durante guerras?! Ou mesmo são integrantes de conselhos de empresas fabricantes de vacinas milagrosas de uma doença que, há dois anos atrás, nem mesmo era catalogada.

Essa batalha pela oportunidade de contar sua própria versão da verdade é o que a Adbusters chama de InfoWar, adaptado por alguns grupos como Guerra de Memes. É no front da batalha pelas mentes que as táticas de guerrilha dos Culture Jammers atuam. Se apropriam de símbolos e os desvirtuam ao limite, como a ação do Wooster Collective que inseriu um manequim de um prisioneiro torturado de Abu Ghraib (ou Guantánamo) em uma das atrações da Disney. Ou ainda pegar os dados do almirante John Poindexter (responsável pelo programa orwelliano Total Information Awareness de coleta e arquivamento de informações… inclusive o próprio selo do programa é um convite a conspiração), coisa como histórico de reformas da casa dele por fotos de satélite, dados telefônicos e histórico de internet; e jogar tudo em arquivos públicos nas mãos de malucos dispostos a se divertirem com aquilo — alguns detalhes foram registrados no Cryptome.

Em 2003, a Sociedade da Cacofonia publicou uma série de cartazes em Los Angeles anunciando: “Nós mataremos nossos animais de estimação para protestar contra a guerra” [do Iraque, no caso]. Tudo seria feito em frente a uma parque, à moda de tribos do início da História, e o grupo que assinava os cartazes era o Movimento Raeliano — uma religião que acredita em contato com ETs e por aí vai. Um alarme acendeu no governo municipal, e ajuda foi pedida ao Departamento de Terrorismo da polícia local. Mas… eles concluíram que não é ilegal matar animais de estimação saudáveis, desde que feitos de forma “humana” (palavra que nesse contexto não parece significar muita coisa).

No dia marcado, vários policiais estavam de frente ao parque, olhando torto para qualquer que passasse com um cachorro por ali. Eles até partiram para cima de uma caminhonete com “pessoas suspeitas dentro”, mas os ocupantes dela afirmaram que estavam ali unicamente porque “alguém tinha dito que algo emocionante aconteceria nas próximas horas”.

Onde tiver Publicidade, Dinheiro, Corporações ou algo suficientemente organizado, lá estará a Culture Jamming para espalhar um pouco de Caos.